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|stollen from DeviantArt| |
Quando abriu a janela, estremeceu. Fitou-se no horizonte por uns instantes e voltou a fechar as vidraças. Correu as cortinas e voltou a deitar-se. Aquele tempo deixava-a deprimida e já estava assim há alguns dias.
Depois de duas ou três voltas na cama decidiu levantar-se e contrariar tudo o que tinha vivido até aqui. Contrariar o tempo e as depressões por ele marcadas.
Desceu a escadaria a correr e foi até à cozinha.Tirou um café. Acendeu um cigarro. Enquanto fumava e fazia argolas de fumo para o ar a gata, feita louca, tentava apanhar as bolas que se desfaziam assim, sem mais nem menos.
Apagou o cigarro e acendeu outro.
Acariciou a bichana e ainda lhe disse:
- "Sofia, deixa de ser parva, pá! Não vês que por mais cigarros que eu acenda e por mais bolas que faça... tu não vais conseguir apanhá-las?"
Ela respondeu-lhe com um "miau" que lhe soou a desilusão e ao mesmo tempo a desafio. Não deu importância.
Em poucos minutos vestiu o que lhe apareceu primeiro à frente - uma t-shirt, que obtera numa promoção de uma qualquer marca de detergente para a roupa, uns jeans e um par de ténis - passou a escova pela cabeleira negra e espigada, lavou os dentes e quase sem pensar, pegou na chave do carro - uma lata velha recentemente comprada a um velho que lho vendeu por 300 euros - e saiu.
O depósito de gasolina estava praticamente vazio e não sabia sequer se chegava à bomba. No entanto arrancou, ao mesmo tempo que ia falando com aquela lata velha:
- "Vá! Aguenta-te lá só mais um bocadinho... Estamos quase, não me desiludas agora, pá!"
Atestou o depósito, pagou e foi-se embora. Acendeu um cigarro e falou de si para si:
-"Mas para onde vais tu, Alice? Bem a algum lado hás-de ir dar. O importante é que saias daquele cubículo por uns tempos... nem que seja para arejar as ideias, caramba! Sim é o melhor que faço. Já sei! Vou passar pelo Journal on Time para ver se há novidades!"
*
A caminho do centro de Banbury*, faz uma chamada:
-"Estou? Alice?? És tu...?" - respondeu, do outro lado, a voz rouca de tanto falar e fumar do Sr. Cratchen, o director do jornal semanal onde Alice era editora/colunista social há já 22 anos.
-"Sim Cratchy sou eu! Surpreso, hum? Não te assustes que ainda não terminei a minha licença - riu-se com ironia - daqui a cinco minutos estou aí para vos dar um abraço!"
E antes que o Sr. Cratchen dissesse algo, Alice desligou.
Alice trabalhava no Journal on Time desde os tempos de faculdade - que não chegou a terminar por causa do trabalho.
Entretanto, no Jornal já Cratchy tinha retirado uma garrafa de champagne para poder brindar com Alice a sua saída da toca. Mal podia esperar por revê-la!
*
A desilusão de Cratchy ao ver Alice assemelhou-se à de uma criança cujo gelado se derrete e cai no chão!
Alice estava magra, pálida e com umas olheiras até ao queixo.
-"Porra, Alice! O que te fizeste? O que te aconteceu?"
Cratchy conhecera uma Alice ondulada. De seios avantajados. De cabelos negros e brilhantes. Longos e soltos. Uma Alice subtilmente colorida e apaixonada por si mesma. Vaidosa. Bela. Muito bela.
-"Ah, Cratchy, não exageres! Estou na mesma!" - disse de forma convincente, mas nem um pouco convencida do que estava a dizer.
Por um minuto o mundo de Alice parou ali. Reconhecera em Cratchy a expressão. Era a mesma que todos os outros por quem passou haviam feito, ainda que não lhes tivesse dado importância. No entanto, Cratchy era diferente. Amigo da família nas boas e nas más alturas desde há muitos anos. Seu patrão, não há tantos, mas já lá iam 22. Conhecia-a como à palma da sua mão. Alice sabia que jamais poderia enganá-lo aliás, nem saberia como fazê-lo se, efectivamente, o desejasse. Aguentou-se em silêncio um bom bocado e, sem saber que voltas daria para desviar o assunto, dá uma estrondosa gargalhada e diz:
-"Caramba! Venho para te visitar e recebes-me assim? Dá cá um abraço, pá!"
O Sr. Cratchen era um homem já de idade avançada, que tinha muita estima por Alice e pela sua família. Profundamente respeitado e respeitador. Cabelos grisalhos e despenteados e durante aquele minuto que o mundo de Alice parara, o dele também parou. Mil e um pensamentos lhe passaram pela ideia e não conseguia chegar a um consenso sobre o que teria acontecido à "sua Alice" durante os 3 meses que se ausentou. A verdade é que nunca a vira naquele estado e sabia que algo se passava. Agora estava certo de que Alice andaria a tentar abstrair-se de algo... Ela jamais o conseguira enganar e agora as suspeitas estavam mais que confirmadas. Não ia perguntar-lhe directamente. Mais cedo ou mais tarde, Alice contaria. No entanto, não gostava do que estava a ver.
Cratchen corre atrás da gargalhada de Alice e responde:
-"Olha, sabes que mais? Tens razão! Dá cá mas é um abraço! E que se abra a nossa champagne!" - tinham sempre uma Möet & Chandon de reserva para sempre que lhes apetecesse.
Durante o abraço, Cratchen sente o coração de Alice acelerado demais para um simples reencontro, mas tenta ignorar. Alice, por seu lado sente no afago do amigo uma forma de segurança. Não vai voltar a tocar no assunto, embora esteja ciente de que Cratchy a terá debaixo de olho. Agora mais do que nunca.
-"Sabes, Alice? Este Jornal precisa de ti - recomeçou Cratchen. Eu sei que tens coisas a fazer lá for, mas a tua coluna decaiu desde que me pediste a licença. As vendas baixaram. Não estou a pedir que voltes. Só quero que tomes nota para, quando estiveres de volta, saberes que tens que dar o melhor de ti... E também para estares preparada. As pessoas que nos lêem vão querer-te renovada. Entendes?"
-"Claro que sim. Não tenhas medo. Sabes que podes contar comigo. Mas não agora. E por falar nisso tenho que me ir embora."
-"Mas estás com tanta pressa porquê? Tens alguma coisa para fazer? Estava a pensar convidar-te para jantar lá em casa. A Brenda e os miúdos iam gostar de te rever."
-"Também eu. Tenho saudades de todos. E daquele teu Bourbon também, como deves calcular! Mas hoje não posso. Depois ligo-te, pode ser?"
-"Claro, minha querida..."
Entretanto o telefone de Cratchen toca. Alice despede-se dele com um beijo soprado e sai.
*
Foi a última vez que Alice foi vista. Já lá vão dois anos.
*Banbury - cidade do condado de Oxfordshire, no Reino Unido.
Livre participação no desafio do mês de Setembro da

Que conto fascinate, fiquei triste quando chegou ao fim:( Espero os próximos. Beijos.
ResponderEliminarOlá Juci... Ainda bem que gostaste... vamos ver em que tipo de aventuras e desventuras Alice andou metida!!!
ResponderEliminarObrigada!
Beijinhos**
Muito bem, tal e qual como na realidade.
ResponderEliminarFiquei com vontade ser essa Alice e também eu desparecer... hoje estou nesse mood.. beijoca
ResponderEliminarP.S. Ficou lindo esse conto
Johnny eu cá tentI, e pelos visto é muito a realidade de muitos!
ResponderEliminaràs vezes também me apetece Bela.
ResponderEliminarbeijinhos**
Estás aí,contando a preceito histórias de maravilhar,e não fosse este canto,um cantinho de encantar!
ResponderEliminarBj*
Vitor... Obrigada!! ;D
ResponderEliminarBeijinhos**
Tá boa esta Alice, e ainda por cima gosta de bourbon. Eu pessoalmente não gosto, mas consigo respeitar.
ResponderEliminarAhah Abrenuncio!! Não sei como.. eu também não gosto... prefiro a Möet & Chandon... mas isso não interessa nada! É uma louca, é que o que é!!
ResponderEliminar*Obrigada por teres arranjado um tempinho para passar aqui!*
Participação livre excelente. Adorei o conto.
ResponderEliminarAs depressões modifican e destroem qualquer pessoa. Nunca mais se volta a ser a mesma. Alice sabia-o e sinceramente eu esperava o seu desaparecimento.
Bjs
Lindo e nos prendeste até o final.um beijo,chica
ResponderEliminarParabéns pelo tema livre. Escrever nos inspira a voar pela imagnação.
ResponderEliminarAmo escrever. Por isso meu tema é Vida de Poeta.
Interação de amigos também está participando. Vou te esperar por lá.
http://sandrarandrade7.blogspot.com
este é um momento onde todos trocam experiências.As coletivas aproximam as pessoas.
Carinhosamente,
sandra
Do que ela precisava era de um valente par de estalos. Não se abala assim, pá!
ResponderEliminarOlá Natália! Obrigada! A ver vamos se desapareceu...! ;)
ResponderEliminarBeijinhos**
Chica, mais uma vez, obrigado!
ResponderEliminarBeijinhos**
Realmente Ginginha...! Vou ver o que posso fazer!! ahahahahah!
ResponderEliminarLala essa imaginação vai de vento em poupa. Lindo conto mas penso como a Ginger: Não se abala assim. Beijinhos
ResponderEliminarObrigada, Mary.... Primeiro tenho que encontrar a Alice... assim como o Feiticeiro das Pedras do Mar que se foi há tempos e ainda não sei nada dele, para depois perceber o que lhes aconteceu para irem de abalada assim!!!
ResponderEliminarBeijinho**
Tenho um triste pressentimento para o que possa ter acontecido à Alice...Lagarto, lagarto! Oxalá ela tenha encontrado o seu céu azul!
ResponderEliminarGostei!
Hummm...quando volta essa Alice? queremos saber se já saiu da fossa....
ResponderEliminarContinua Lala, estamos atentos
Benvinda Neves