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sábado, 28 de agosto de 2010

Alice

|stollen from DeviantArt|

Quando abriu a janela, estremeceu. Fitou-se no horizonte por uns instantes e voltou a fechar as vidraças. Correu as cortinas e voltou a deitar-se. Aquele tempo deixava-a deprimida e já estava assim há alguns dias.

Depois de duas ou três voltas na cama decidiu levantar-se e contrariar tudo o que tinha vivido até aqui. Contrariar o tempo e as depressões por ele marcadas.
Desceu a escadaria a correr e foi até à cozinha.Tirou um café. Acendeu um cigarro. Enquanto fumava e fazia argolas de fumo para o ar a gata, feita louca, tentava apanhar as bolas que se desfaziam assim, sem mais nem menos.
Apagou o cigarro e acendeu outro.
Acariciou a bichana e ainda lhe disse:
- "Sofia, deixa de ser parva, pá! Não vês que por mais cigarros que eu acenda e por mais bolas que faça... tu não vais conseguir apanhá-las?"
Ela respondeu-lhe com um "miau" que lhe soou a desilusão e ao mesmo tempo a desafio. Não deu importância.

Em poucos minutos vestiu o que lhe apareceu primeiro à frente - uma t-shirt, que obtera numa promoção de uma qualquer marca de detergente para a roupa, uns jeans e um par de ténis - passou a escova pela cabeleira negra e espigada, lavou os dentes e quase sem pensar, pegou na chave do carro - uma lata velha recentemente comprada a um velho que lho vendeu por 300 euros - e saiu.
O depósito de gasolina estava praticamente vazio e não sabia sequer se chegava à bomba. No entanto arrancou, ao mesmo tempo que ia falando com aquela lata velha:
- "Vá! Aguenta-te lá só mais um bocadinho... Estamos quase, não me desiludas agora, pá!"

Atestou o depósito, pagou e foi-se embora. Acendeu um cigarro e falou de si para si:
-"Mas para onde vais tu, Alice? Bem a algum lado hás-de ir dar. O importante é que saias daquele cubículo por uns tempos... nem que seja para arejar as ideias, caramba! Sim é o melhor que faço. Já sei! Vou passar pelo Journal on Time para ver se há novidades!"
*
A caminho do centro de Banbury*, faz uma chamada:

-"Estou? Alice?? És tu...?" - respondeu, do outro lado, a voz rouca de tanto falar e fumar do Sr. Cratchen, o director do jornal semanal onde Alice era editora/colunista social há já 22 anos.

-"Sim Cratchy sou eu! Surpreso, hum? Não te assustes que ainda não terminei a minha licença - riu-se com ironia - daqui a cinco minutos estou aí para vos dar um abraço!"

E antes que o Sr. Cratchen dissesse algo, Alice desligou. 
Alice trabalhava no Journal on Time  desde os tempos de faculdade - que não chegou a terminar por causa do trabalho.
Entretanto, no Jornal já Cratchy tinha retirado uma garrafa de champagne para poder brindar com Alice a sua saída da toca. Mal podia esperar por revê-la!
*
A desilusão de Cratchy ao ver Alice assemelhou-se à de uma criança cujo gelado se derrete e cai no chão!
Alice estava magra, pálida e com umas olheiras até ao queixo.

-"Porra, Alice! O que te fizeste? O que te aconteceu?"

Cratchy conhecera uma Alice ondulada. De seios avantajados. De cabelos negros e brilhantes. Longos e soltos. Uma Alice subtilmente colorida e apaixonada por si mesma. Vaidosa. Bela. Muito bela.

-"Ah, Cratchy, não exageres! Estou na mesma!" - disse de forma convincente, mas nem um pouco convencida do que estava a dizer.

Por um minuto o mundo de Alice parou ali. Reconhecera em Cratchy a expressão. Era a mesma que todos os outros por quem passou haviam feito, ainda que não lhes tivesse dado importância. No entanto, Cratchy era diferente. Amigo da família nas boas e nas más alturas desde há muitos anos. Seu patrão, não há tantos, mas já lá iam 22. Conhecia-a como à palma da sua mão. Alice sabia que jamais poderia enganá-lo aliás, nem saberia como fazê-lo se, efectivamente, o desejasse. Aguentou-se em silêncio um bom bocado e, sem saber que voltas daria para desviar o assunto, dá uma estrondosa gargalhada e diz:

-"Caramba! Venho para te visitar e recebes-me assim? Dá cá um abraço, pá!"

O Sr. Cratchen era um homem já de idade avançada, que tinha muita estima por Alice e pela sua família. Profundamente respeitado e respeitador. Cabelos grisalhos e despenteados e durante aquele minuto que o mundo de Alice parara, o dele também parou. Mil e um pensamentos lhe passaram pela ideia e não conseguia chegar a um consenso sobre o que teria acontecido à "sua Alice" durante os 3 meses que se ausentou. A verdade é que nunca a vira naquele estado e sabia que algo se passava. Agora estava certo de que Alice andaria a tentar abstrair-se de algo... Ela jamais o conseguira enganar e agora as suspeitas estavam mais que confirmadas. Não ia perguntar-lhe directamente. Mais cedo ou mais tarde, Alice contaria. No entanto, não gostava do que estava a ver.

Cratchen corre atrás da gargalhada de Alice e responde:

-"Olha, sabes que mais? Tens razão! Dá cá mas é um abraço! E que se abra a nossa champagne!" - tinham sempre uma Möet & Chandon de reserva para sempre que lhes apetecesse.

Durante o abraço, Cratchen sente o coração de Alice acelerado demais para um simples reencontro, mas tenta ignorar. Alice, por seu lado sente no afago do amigo uma forma de segurança. Não vai voltar a tocar no assunto, embora esteja ciente de que Cratchy a terá debaixo de olho. Agora mais do que nunca.

-"Sabes, Alice? Este Jornal precisa de ti - recomeçou Cratchen. Eu sei que tens coisas a fazer lá for, mas a tua coluna decaiu desde que me pediste a licença. As vendas baixaram. Não estou a pedir que voltes. Só quero que tomes nota para, quando estiveres de volta, saberes que tens que dar o melhor de ti... E também para estares preparada. As pessoas que nos lêem vão querer-te renovada. Entendes?"

-"Claro que sim. Não tenhas medo. Sabes que podes contar comigo. Mas não agora. E por falar nisso tenho que me ir embora."

-"Mas estás com tanta pressa porquê? Tens alguma coisa para fazer? Estava a pensar convidar-te para jantar lá em casa. A Brenda e os miúdos iam gostar de te rever."

-"Também eu. Tenho saudades de todos. E daquele teu Bourbon também, como deves calcular! Mas hoje não posso. Depois ligo-te, pode ser?"

-"Claro, minha querida..."

Entretanto o telefone de Cratchen toca. Alice despede-se dele com um beijo soprado e sai.
*
Foi a última vez que Alice foi vista. Já lá vão dois anos.

(...)

*Banbury - cidade do condado de Oxfordshire, no Reino Unido.



Livre participação no desafio do mês de Setembro da 

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Quero fazer amor contigo como se fosse uma deusa...

Quero fazer amor contigo esta noite, como se fosse uma deusa que nasceu para te amar…
Quero dançar no teu corpo, num bailar de véus e de sentidos, até já não haver céu…
Quero levar-te a passear por entre as estrelas num trilho de abraços e de lua e prolongar os meus braços no sal da tua pele, quando os meus lábios tocarem os teus e as tuas mãos não souberem mais como ocultar os teus anseios…
E os meus seios vão chamar pela lua e pelos ventos e, até, pelas ondas do mar…

No ondular da tua língua, no epicentro do universo da minha vontade e dos teus desejos…

Quero dançar este amor contigo numa ilha sem nome ao som dos sussurros que os teus lábios não conseguem guardar…
E quero ouvi-los em forma de gemidos entrelaçados com o som do mar…
E, ao arquejar do meu corpo, a cada compasso dessa melodia que vamos cantar, saberás que te amo mais que à vida e que dançarei até ao fim…
E, de ti, soltarás a nascente de fogo e de vida, que desaguará em mim…

E, de seguida, estenderás os braços, num abraço, para que adormeça em ti!
E eu sentirei o beijo com que fechas as cortinas da noite em que fiz amor contigo assim...


Fev 1999

Paixão para o desafio do mês de Maio da Fábrica de Letras

::encontro marcado::