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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Quero fazer amor contigo como se fosse uma deusa...

Quero fazer amor contigo esta noite, como se fosse uma deusa que nasceu para te amar…
Quero dançar no teu corpo, num bailar de véus e de sentidos, até já não haver céu…
Quero levar-te a passear por entre as estrelas num trilho de abraços e de lua e prolongar os meus braços no sal da tua pele, quando os meus lábios tocarem os teus e as tuas mãos não souberem mais como ocultar os teus anseios…
E os meus seios vão chamar pela lua e pelos ventos e, até, pelas ondas do mar…

No ondular da tua língua, no epicentro do universo da minha vontade e dos teus desejos…

Quero dançar este amor contigo numa ilha sem nome ao som dos sussurros que os teus lábios não conseguem guardar…
E quero ouvi-los em forma de gemidos entrelaçados com o som do mar…
E, ao arquejar do meu corpo, a cada compasso dessa melodia que vamos cantar, saberás que te amo mais que à vida e que dançarei até ao fim…
E, de ti, soltarás a nascente de fogo e de vida, que desaguará em mim…

E, de seguida, estenderás os braços, num abraço, para que adormeça em ti!
E eu sentirei o beijo com que fechas as cortinas da noite em que fiz amor contigo assim...


Fev 1999

Paixão para o desafio do mês de Maio da Fábrica de Letras

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Estúdio Fotográfico


Era ainda muito cedo e Zézinho já estava a caminho. O seu irmão mais velho, o Manel, era o ardina da aldeia e antes de sair de casa para fazer chegar o mundo inteiro à sua aldeia, tinha o cuidado de o acordar. Todas as manhãs cumpriam o mesmo ritual. Manel deixava o leite já aquecido para o irmão, enquanto Zézinho lhes preparava a merenda para a bucha da manhã.
A doença repentina e posterior morte da mãe obrigara-os a trabalhar cedo. O suor do trabalho do pai não chegava para o mês todo e eles decidiram trabalhar. Manel tinha apenas mais 2 anos que Zézinho, que só contava 10. Contudo, não abandonaram a escola. Trabalhadores-estudantes eram o orgulho do pai, que por vezes se sentia envergonhado pela situação em que os tinha colocado.
~***~
Zézinho  era aprendiz num estúdio fotográfico. Todas as manhãs abria a porta da loja, subia os estores e ligava a caixa registadora. Lá dentro, na ante sala, verificava se os espelhos estavam limpos, colocava os pentes na tina, borrifava-lhes álcool para os desinfectar e matar algum piolho que lá tivesse ficado e colocava a tina à janela para que o álcool evaporasse mais depressa. Depois, dirigia-se à sala onde tudo acontecia. Reorganizava os painéis, ajeitava o conteúdo do velho baú, limpava as lentes, verificava a iluminação e a altura dos bancos – gostava de os ver nivelados à mesma altura. Tinha para si que aquele espaço deveria parecer sempre novo.
Enquanto preparava todo o cenário para mais um dia de emoções, sonhava com o dia em que deixaria de ser aprendiz e se tornaria num profissional como o Sr. Jacinto, o fotógrafo.
O Sr. Jacinto era experiente. No ramo há muitos anos, também ele havia começado como Zézinho, limpando e organizando a loja e, por isso dava muito valor ao seu trabalho.
Quando o Sr. Jacinto chegava, tudo estava pronto. E nessa altura Zézinho saía a correr para se encontrar com Manel na praça e juntos seguirem para a escola. Só tinham aulas de manhã e isso dava ao Zézinho tempo para regressar à loja e ajudar o Sr. Jacinto no que ainda fosse preciso. Afinal era seu aprendiz e queria ser como ele.
~***~
Era aí que tudo começava! A partir dessa altura Zézinho entrava no mundo mágico dos sonhos. No mundo mágico das pessoas que sonhavam acordadas. Das pessoas que imortalizavam momentos que apenas existiam para si próprias. E Zézinho sonhava com elas. Viajava com as personagens que aquelas pessoas queriam representar e com elas travava grandes diálogos.
O Sr. Jacinto dizia muitas vezes a Zézinho:
“A vida é uma fantasia. Toda a gente tem o direito de sonhar.”
Por isso o velho baú do estúdio guardava em si vestes. Não havia quem ali entrasse que não se fantasiasse de qualquer coisa. Algumas pessoas chegavam mesmo a levar adereços de casa e a oferecê-los ao Sr. Jacinto “para quem com eles quisesse sonhar!”
~***~
O estúdio era pequeno e apertado, mas lá era possível dar a volta ao mundo inteiro, quase com um passe de magia, uma simples troca de painéis. Era possível transformar o dia em noite em segundos… Sonho e realidade misturavam-se constantemente naquele estúdio.
A D. Elisa era uma dama. Uma vez por semana entrava no estúdio. Zézinho já sabia quem ela queria ser, então, à quarta-feira até ia mais cedo para preparar também as coisas dela. Adorava a felicidade com que a senhora saía dali.
Ela esmerava-se tanto nas roupas e adereços, que muitas vezes parecia mesmo uma Rainha do século XVIII. Escolhia sempre um figurino de época. Maquilhava-se já com as mãos trémulas e, para dar impressão de saúde, coloria a face com ‘rouge’. O saiote rodado e as saias enormes sobre arames, encorpavam os tecidos moles que nunca tinha tido vergonha de os mostrar. Mas ali não. Ali sentia-se como uma rainha. Preparava-se, o rosto tornava-se sério, colocava-se em pose erecta, mais por causa do corpete, e parecia que estava pronta a transformar todos à sua volta em servos e lacaios.
Ao fundo, o Sr. Jacinto prepara tudo. Escolhe o painel perfeito, com outro palácio ao fundo antecedido por um esplendoroso jardim de flores brancas e vermelhas. No centro um repuxo que brota água da boca de pequenos anjos. Alguns nobres de tal forma retratados que parecia que lhe faziam a ‘corte’. Tudo milimetricamente arranjado para que a foto ficasse perfeita. Como se D. Elisa estivesse lá, efectivamente.
O Sr. Jacinto interrompe o sonho por uns segundos:
“- Atenção… Isso mesmo… e
“buf”!
Uma e outra, e outra vez mais. O flash vai disparando à medida que D. Elisa vai mudando de ‘pose’.
Depois D. Elisa troca de roupa, sai e vai muito satisfeita. No final do dia o Sr. Jacinto levará as fotos a sua casa, para que escolha as que melhor ilustram o seu sonho…
Na ante sala outro cliente se prepara… É o Sr. João, o padeiro… vai ser comandante.
~***~
A verdade é que todos os clientes do Sr. Jacinto saiam da sua loja muito satisfeitos. De alma renovada. De peito inchado. E o Sr. Jacinto achava que ainda era vivo por isso mesmo. Por ter o dom de fazer os outros felizes.
“Toda a gente tem o direito de sonhar” e no Estúdio Fotográfico do Sr. Jacinto, todos os sonhos se tornavam realidade.
Era isso que fascinava o pequeno Zézinho e o fazia levantar-se antes das galinhas… para ajudar o Sr. Jacinto a realizar sonhos.
“Um dia sou eu que os vou realizar” – pensava ele com um sorriso nos lábios…
~***~
Lá fora a placa, em letras grandes:
FOTOGRAFAM-SE SONHOS

::encontro marcado::